Na prática do modelismo em escala, às vezes nos deparamos com a necessidade de reproduzirmos uma peça, seja por sua perda, seja por querermos montar uma conversão.
A borracha de silicone, ou o RTV ou o elastômero são excelentes materiais de moldagem, mas apresentam algumas desvantagens, das quais podemos citar duas:
1- Custo muito alto, que dificulta ou até mesmo inviabiliza o seu manuseio em uma fase de aprendizado.
2- Dificuldade de ser encontrado em cidades menores.
Quando damos os primeiros passos no mundo do scratch-building, um dos maiores desafios é justamente a reprodução das peças .... A manipulação das "borrachas" assusta um bocado, principalmente pelo custo do aprendizado, pois até dominarmos as diversas técnicas e macetes do material, gastamos litros e litros de material caro, o que nos frusta e afasta desta faceta do modelismo. Eu sei, porque passei ( e ainda passo...) por isso...
O ideal seria que existisse um material que nos permitisse trabalhar com "margem de erro" ou com "reversibilidade"....
E o diabo é que ele existe !!!!
Como Dentista, lembrei-me de um produto antigo, em forma de geléia muito densa, chamado HIDROCOLÓIDE REVERSÍVEL. Eu só conhecia este material de minhas aulas de Materiais Dentários, nos tempos de Faculdade.
Como o próprio nome diz, apresenta como característica a reversibilidade, ou seja, pode ser fluidificado e gelificado infinitas vezes. Antigamente era utilizado na moldagem de pacientes, mas seu uso foi abandonado pelo incômodo de sua utilização in vivo. Suas características são fluidificações à quase 100° C e permanência de liquidez até quase 50° C, quando então retorna ao seu estado de gel.
A Odontologia utiliza, hoje em dia, o Hidrocolóide Irreversível (Alginato) nas moldagens da boca. Embora o Alginato seja mais prático nos pacientes, suas características de irreversibilidade oneram (embora menos que o RTV) o custo de moldagens no Modelismo.
Hoje em dia, o Hidrocolóide Reversível só é utilizado em Laboratórios de Prótese, sob o nome de Duplicador K-27.

Fig. 01- Duplicador K 27 - Hidrocolóide reversível
Quando me lembrei da substância, entrei em contato com meu Laboratório de Prótese e o Técnico me confirmou as características do produto, tirando o restante de minhas dúvidas. Este material possibilita a moldagem de peças pequenas e grandes com nitidez, facilidade, economia e REVERSIBILIDADE...
Unsterbliche Götter ! (tradução: Deuses Imortais !)
Compre o seu em qualquer loja que venda materiais e/ou produtos para Dentistas e Laboratórios de Prótese. Custa muito barato (por volta de R$20,00 a R$25,00 o kg, em janeiro/2005). Peça pelo nome de DUPLICADOR K27.
Este produto se presta à reprodução de peças em resina ou acrílico. O K27 não suporta chumbo ou outro material derretido por calor.
Comprei este pote de um quilo de K-27 há cinco anos e a substância está inalterada desde então. Os únicos cuidados são mantê-lo fechado em sua embalagem original (para prevenir a desidratação do material) e evitar sua contaminação com sujeira e/ou água em excesso.
Vou descrever as etapas de dois tipos de moldagem:
1- Reprodução de peças de fundo plano.
2- Reprodução de peças complexas.
Peças de Fundo Plano:
A reprodução de uma peça que apresente uma face de apoio ou base, como, por exemplo, um caixote de metal ou de madeira, um jerry-can, uma roda de estepe, uma torreta ou até mesmo um casco completo, é mais fácil, pois o molde será obtido em uma única etapa de moldagem.
Vejam a figura abaixo: a peça fica apoiada em seu fundo e este fundo pode ser plano...

Fig. 02. Tipica figura de fundo plano - caixa de mantimentos
Providencie um recipiente para ser a forma do material a ser moldado. Seu tamanho deve ser compatível com a peça a ser reproduzida. O ideal são estes potes plásticos de freezer e micro-ondas, mas pode ser copo descartável, pote de margarina, uma forma de madeira ou papelão, ou mesmo uma forma feita com peças de Lego. O ideal é que a forma seja deformável ou desmontável, o que facilita a remoção do K27 após sua gelificação.

Fig.03 - Forma de Lego
Cole a peça original, com cola branca, no fundo desta forma. O objetivo de se colar com cola branca a peça original é evitar que a mesma "flutue" na geléia K-27 e permitir sua remoção de forma fácil, sem danificar a peça original. Aguarde a sua secagem. Evite fixar a peça com cera ou massinha de modelar, pois o K27 será vertido quente na forma e estes materiais tendem a soltar a peça.

Fig.04 - Peça colada ao fundo da forma...
Usando uma colher, pegue (ou corte...) algumas porções de K-27 de sua embalagem e coloque estes fragmentos em um recipiente de vidro ou de plástico LIMPO (para não contaminar o K-27). Recorte a geléia em pedaços pequenos para facilitar seu derretimento. Leve ao forno de microondas, iniciando por 20 seg. Este tempo pode variar da potência do aparelho ou dependendo da porção. Evite que a geléia entre em ebulição, pois as bolhas podem "bolhar" o modelo a ser obtido. Se você não tiver microondas, derreta em fogo brando em uma panelinha de metal esmaltado ou de vidro. Tome o mesmo cuidado para não "bolhar" a geléia. A geléia do K27 fluidifica por volta de 100° C.
OOOPAAA !!!
Mas isto vai derreter ou empenar a minha peça !
Calma !!!
No panic !!!
Espere alguns segundos para que a geléia diminua um pouco a temperatura...Eu, particularmente, espero, no máximo, 10 segundos e derramo a geléia sobre a peça-matriz. Comigo, nunca aconteceu uma alteração de peça, mas se você estiver preocupado, faça um test-drive antes, com uma peça "descartável" e teste...com o tempo, você perderá certos "pudores". Heheheheheheheh !!
A geléia volta a solidificar por volta de 40°C. Mas não espere muito. Verta vagarosamente esta geléia aquecida na forma, depositando com cuidado para evitar a aderência de bolhas na superfície da peça-matriz. Se isto ocorrer, pegue um palito ou espetinho e perfure a bolha, enquanto está quente e fluido. Submerja a peça totalmente com o K27. Se não for o suficiente, o K27 aceita acréscimos, desde que não esteja solidificado.Se sobrar, pode verter este excesso diretamente de volta à embalagem do K27...

Fig.05 - Vertendo o K27 - tenha a certeza de cobrir a peça com sobra...
Grande macete !
Para acelerar o processo de "gelificação", coloque o conjunto dentro de uma forma maior ainda, com água gelada no fundo, tendo o cuidado de esta água de refrigeração não "transbordar" para dentro da forma. Coloque cubos de gelo nesta água, se quiser, mas cuidado para não contaminar o K27 ainda fluido com água.

Fig.06 - Acelerando a gelificação com água gelada
Não se preocupe com os restos do K27 na panela ou no recipiente do micro-ondas....Quando o K27 gelificar, você vai poder removê-lo com muita facilidade. Ele não é um produto tóxico.
Após a gelificação, você pode remover o conjunto geléia/peça da forma (se for um copo descartável, corte o copo e a coisa fica mais fácil...) com cuidado, descolando a peça matriz do fundo desta forma. Ela sairá com muita facilidade e você obterá uma impressão em baixo-relevo, onde você vazará o material de sua peça-clone. Você poderá utilizar o acrílico dentário (Jet, mas é caro...) ou as resinas de poliéster ou de poliuretano, misturadas com um pouco de talco para "baratear" o custo e dar consistência mais maleável à resina. outro macête é acrescentar algumas gotas de tinta esmalte, para colorir a resina. Preencha todo o baixo-relevo com cuidado, para evitar a formação de bolhas, espere "curar" a peça e remova-a...
A forma deve ser utilizada de imediato, pois o K27 desidrata com relativa facilidade, permitindo umas duas ou três moldagens, no máximo. Aproveite e faça uma peça de uso e uma de "estoque"...
Veja Bem :
Seu objetivo não é ser uma forma de estoque, mas uma forma IMEDIATA. Você pode guardar a forma por algumas horas, dentro de um recipiente FECHADO, na geladeira, mas não o utilize por mais do que 24 h, pois aí ela perde a estabilidade dimensional.
Quando a forma tiver perdido sua utilidade, corte-a com uma faca em cubos ou pedaços e retorne para a embalagem original.

Fig.07- Restos da forma ....guardar e reutilizar....repare a porção fora da tampa: é uma forma de capota de Steyr 1500
Pronto!
O resultado final é bastante satisfatório, como mostram as fotos a seguir: Nosso amigo Leo Hack perdeu a capota dobrada de seu Steyr 1500 Tamiya e uma nova foi executada, com a geléia K27 (Eu tenho um Steyr na caixa e reproduzi minha peça...). A única diferença é que fiz uma forma "fechada" e cortei a forma mais tarde, para poder remover a peça (pois ela não tinha fundo plano...) e acrescentar a resina...Esta técnica ( e outras...) serão descritas mais adiante...
Vejam as fotos:

Fig.08 - Close-up da forma - porção inferior da capota do Steyr.

Fig.09 - Foto da capota do Steyr, já reproduzida, montada e pintada (foto: Leo Hack)

Fig.10 - Foto da capota do Steyr - repare nos detalhes das dobras...(foto: Leo Hack)

Fig.11 - Close-up da capota. (foto: Leo Hack)
Reprodução de peças Complexas:
Quando as peças a serem reproduzidas são mais complexas, como por exemplo: pneus, capotas, figuras completas, devemos lançar mão de duas técnicas:
1- Corte da forma (como a capota do Steyr citada acima)
2- Técnica de dupla moldagem.
A primeira providência a se tomar é identificar a linha-média da peça ou marca de união da peça. É normalmente a pequena rebarba que fica da união das duas metades do molde da peça original. Baseada nela é que faremos o futuro corte de nossa forma ou a dupla moldagem. Como o K27 é semi-transparente, você pode evidenciar esta região usando uma caneta de retroprojetor de ponta fina ou, simplesmente, não removendo TODA a rebarba, deixando um pouco como referência.Ela indica onde a forma original foi feita e nós vamos reproduzir esta referência.

Fig.12 - Pneu apresentando a rebarba da linha-média da peça
Vamos relatar estas duas variações de confecção de formas:
Corte da Forma:
Esta técnica, como o próprio nome diz, tem como característica o corte da forma de K27.
Sua peça-matriz deve ser montada em uma estativa, feita com restos de árvores de sprue. Esta estativa servirá de apoio e de canal alimentador de resina. O ideal é que ela esteja colada sobre a porção mediana da peça, em uma região que não altere muito os detalhes da peça. Veja a figura:

Fig.13 – Peça com estativa montada
Esta estativa deve ser colada com cola normal, mas em pouca quantidade, para não deformar a peça, como foi dito. Após a montagem da estativa, cole mais um sprue fino, na porção mais superior da peça, para funcionar como um ducto de drenagem de ar, para evitar que o ar aprisionado no interior do molde impeça a resina de fluir. Você também pode fazer este ducto de drenagem pela técnica do "canudinho", que será descrita mais abaixo...
Instale todo o conjunto sobre o recipiente que será a forma. O ideal é que este recipiente seja de plástico deformável, mas que apresente certa estabilidade, pois a geléia, depois de cortada, será re-inserida neste recipiente e funcionará como um gabarito para a forma. Não use copo descartável ou de vidro.
Repare que a peça matriz fica no meio do espaço da forma.

Fig.14 – Peça com estativa montada na forma
Verta a geléia aquecida neste conjunto, submergindo-o completamente e deixe esfriar, conforme técnica descrita anteriormente.

Fig.15 – Peça embebida pelo K27
Após o resfriamento/endurecimento da geléia, remova o conjunto da forma e, com uma faca afiada ou um estilete, corte a forma, em traço único, buscando encostar a lâmina na peça e tocando a linha-média da mesma, envolvendo no corte as linhas médias dos sprues de alimentação e de drenagem. Corte com cuidado, pois é fácil deslizar o corte. Tenha certeza do toque da lâmina do estilete ou da faca na peça, para que não "rasgue" a forma, ao serem separadas as duas metades.

Fig.16 – Geléia fora da forma, sendo cortada na linha média
Ao separar as metades, você terá as duas partes de sua forma. Remova o conjunto peça matriz-sprues e observe o baixo-relevo obtido desta manobra. Remova, assoprando, de seu interior, qualquer resto de K27 ou de impurezas que possam contaminar sua futura peça

Fig. 17 – Forma aberta, sem a matriz.
Reúna as metades, procurando um bom alinhamento e RETORNE AS METADES PARA A FORMA. Por isso é que o recipiente não poderia ser destruído: o recipiente é o gabarito para evitar que as metades da moldagem se movimentem e alterem o alinhamento entre elas. O recipiente manterá a coesão e a estabilidade das duas metades da forma. Verta resina (ou qualquer outro material, menos metal derretido...) através do ducto de alimentação... Espere dar presa e...
Pronto!
Técnica da Dupla Moldagem:
Esta técnica, como o próprio nome diz, tem como característica a moldagem em duas etapas: a primeira até a linha-média da peça e a segunda, preenchendo toda a forma restante. O K27, mesmo sendo ativado pelo calor, pode executar esta técnica com alguns detalhes...
A forma ideal, para esta técnica, é a de Lego, com os cubinhos formando uma forma rasa. Eu, particularmente, uso os chamados "Legos Genéricos", marca Xing-Ling, por motivo de economia...Você pode usar a base do próprio sistema de jogos, ou então, sobre uma superfície lisa, como uma placa plástica ou de vidro, ou mesmo um azulejo... Monte a barreira de cubinhos e "vede" a base com cola quente, também encontrada em lojas Xing-Ling, muito barato e reversível. Você pode fazer uma primeira etapa, com uma barreira mais baixa, para facilitar o trabalho, e depois aumentar a barreira, para a segunda etapa...

Fig. 18 – Forma de cubinhos Lego (rasa)

Fig.19 – Vedando com cola quente – você vai descobrir infinitas utilidades para a cola quente...
Preencha a forma rasa com a K27 derretida, até quase a borda da forma...Aguarde alguns instantes.

Fig. 20 – Preenchendo...
Você vai comprimir a peça contra a K27, até a sua linha média...Não espere a geléia esfriar para este passo...ela deve estar em estado fluido. Se a sua peça for côncava, como o pneu deste exemplo, o ideal seria você colocar, com o dedo, uma porção da geléia ainda fluída na concavidade, para evitar a incorporação ou a formação de bolhas...Não se preocupe que, em pequenas quantidades, o calor é insuficiente para machucar...

Fig.21 – Peça "enterrada" até a linha média... deixe esfriar...
Procure deixar a peça na horizontal e evite "respingos" do material sobre ela. Deixe esfriar, podendo, inclusive, levar à geladeira (NÃO NO FREEZER OU NO CONGELADOR). Se você optou em fazer a barreira mais baixa, agora você pode aumentar mais camadas em sua forma de cubinhos, para receber a segunda camada.
Com o resfriamento da peça, você vai verter mais K27 sobre a superfície já gelificada (...e resfriada) que a geléia não vai derreter e incorporar na geléia antiga. Se você quiser, pode passar com pincel uma fina camada de tinta acrílica. O colega Roberto Sisca "pintou" com aerógrafo esta camada com tinta duco e obteve excelentes resultados...a pelicula de tinta sai facilmente, depois. Teste e use as diversas técnicas (e não se esqueça de criar a sua própria...este material é reversível...)
Assim, o K27 novo não vai aderir ao K27 antigo. Principalmente se você RESFRIOU a moldagem da primeira fase...Este resfriamento é de mais ou menos 15 minutos...

Fig. 22 - Forma aumentada e totalmente preenchida...
Após o resfriamento, que pode ser na geladeira por 15 minutos, remova uma parte dos cubinhos da barreira (a geléia, depois, vai retornar para esta forma...) e observe a linha de separação entre as camadas de K27 e separe-as, com cuidado, removendo a peça-matriz. Não se esqueça de fazer a forma com bastante sobra, pois neste caso, não existe motivo de economia, pois o K27 é reversível. Não faça formas muito finas, pois o material é frágil....
Eu, particularmente, tenho um macete. Separei uma porção de meu K27, derreti e acrescentei, quando fluido, algumas gotas de anilina alimentar, só para dar um tom diferente no "alaranjado" do K27 padrão. Este K27 "batizado" é ideal para esta técnica, pois você nota nitidamente a separação das cores na transparência da geléia.... O único cuidado é guardar o K27 colorido em uma nova embalagem, para não misturar com o padronizado.
Removida a peça matriz, retorne a camada superior da forma de geléia para o arcabouço de cubinhos e faça, com dois canudinhos de refrigerante, os ductos de alimentação e de drenagem. É só ir girando os canudos contra a geléia, que eles "cortam" o material, recolhendo em seu interior a geléia

Fig. 23 – Tubos de alimentação e drenagem. Observe a barreira parcialmente removida...
Detalhe nº 1: use um canudo mais grosso (tipo vitamina) para fazer o ducto de alimentação;
Detalhe nº 2: coloque o ducto de drenagem na porção mais alta do baixo relevo (no teto...), pois é na porção mais alta que se acumulam as bolhas de ar. Estas etapas são facilmente realizadas, mesmo com a forma fechada, pois o K27 é semi-transparente...
Cuidado para não danificar os detalhes da moldagem.
Detalhe nº 3 (de Brima...): sopre os canudinhos dentro das embalagens de K27 para não desperdiçar o material. heheheheheheh.
Refaça a barreira da forma, vaze a resina e bem-vindo ao mundo dos Professores Pardais....
O objetivo deste artigo não é o de apresentar um material melhor que o RTV ou da Borracha de Silicone mas, sim, apresentar um material econômico que permita ao modelista experiente e ao novato adentrar no mundo das reproduções, com a possibilidade de erros nesta área da reprodução de peças,com o menor custo possível....
Pratique e crie...você verá que existem infinitas variações e possibilidades com o uso deste material. E as novas idéias continuam aparecendo....
Como sempre, existindo dúvidas, tecle, que será um prazer tentar esclarecê-las...
E, desculpem a qualidade dos desenhos e dos gráficos.
Minha praia são os kits, não os computadores...